Coletivo Imaginário - PandoraPix


Coletivo Imaginário é formado por Tatiana Guinle e Marcelo Carrera.

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O Discreto Silêncio das Cores

Por Bia Dias


Estamos no território evanescente da memória, e é preciso abrir os olhos para não perder de vista o que há de sobrenatural e mágico nas fotografias anônimas e decantadas pelo tempo, do potente trabalho de Marcelo Carrera e Tatiana Guinle.

Jean-Luc Nancy, em lindo ensaio sobre poesia, diz que é poético aquilo que não coincide consigo mesmo e que são a não-coincidência e a impropriedade substancial que nos arremessam ao terreno da poética. E o que encontramos em cada fotografia de Marcelo e Tatiana é uma poesia repleta de rastros afetivos - poesia presente em cada composição, em cada alteração, em cada cor, em cada ruído silencioso a contar histórias insondáveis.

O que está em jogo nas fotografias é justamente o enigma do tempo estendido no olhar. Há nelas índices, sinais, pegadas que causam estranhamento. Há – como no dizer do crítico Didi-Huberman em "Devant l´ image" - uma espécie de materialidade do tempo. A presença desses vestígios faz com que se abra na imagem uma temporalidade outra, para a qual somos convocados, não somente como receptores, mas também como intérpretes, o que acaba exigindo um trabalho típico da memória sobre os traços, promovendo a irrupção do passado no presente, quebrando a linearidade do tempo.

A partir do trabalho de recriação em cada fotografia, reativa-se algo esquecido e soterrado na memória que, trazido à tona, vem alterando não só o passado, mas o solo em que (re) surge. Nesse ponto nodal está toda a inquietação do trabalho: não sabemos se mergulhamos nas imagens e nos dissolvemos em passados anônimos ou se é a obra que nos adentra em mergulho e nos absorve em nosso tempo radical e único.

O passado em sua visualidade é colocado em cena. O olhar nos é devolvido e nesse movimento de reconhecimento e estranhamento, de algo que se mostra - e se perde - passamos a reconstruir narrativas imaginárias.

E nessa dinâmica de aproximação nos deparamos com algo que não podemos abranger por meio da razão, visto que o que a obra evoca é que há algo na memória que sempre nos escapa, que não se esgota naquilo que é visível - há detrás de cada fotografia a possibilidade de um beijo, um sussurro, um grito, um desvario, um nada. Imóveis, as imagens se movem em nosso imaginário e apontam um saber não verificável no que se vê, e sim no mais além, instaurando um novo olhar para as fotografias e para o tempo, estimulando perceber o trabalho na esfera dos não-sentidos contidos nas imagens.

Deste modo, é um convite, como o feito por Didi-Huberman no seminal livro "O que vemos, o que nos olha": um convite a inquietar a visão diante da obra de arte e experimentar aquilo que não vemos, pois algo há na obra que atinge o nosso olhar, algo que chama a perda de certezas sobre o objeto da memória e lança ao vazio e ao enigma.

No mistério do relicário afetivo trazido pelas fotografias, caminha-se deambulante entre cores esmaecidas - marcas da passagem do tempo, do real incidindo na vida, cores que atingem o olhar por meio de uma materialidade que inquieta e lança ao espaço delicado do entre-lugar – lugar entre o visível e o invisível, o que revela e o que desvela - entre tempos que sequer sabemos se existiram.

Na fotografia de Marcelo Carrera e Tatiana Guinle, o jogo de forças antagônicas é revelado, como nas palavras de Walter Benjamim onde: "Não cabe dizer que o passado ilumina o presente ou que o presente ilumina o passado. Uma imagem, ao contrário, é aquilo no qual o pretérito encontra o agora."

No nada discreto silêncio das cores, escutamos os ruídos das coisas.

O tempo se dobra nele mesmo e revirados do avesso saímos desse encontro.